O futebol não tolera mais
- Sabrina Fernandes
- 14 de abr. de 2020
- 6 min de leitura
Pela primeira vez na história, um jogo do brasileirão foi paralisado por conta de homofobia. Foi no jogo entre Vasco e São Paulo, em São Januário, válido pela 16ª rodada do campeonato brasileiro. Aos 19 minutos do segundo tempo, o árbitro Anderson Daronco paralisou a partida, por conta de gritos como “time de veado”, vindos da torcida vascaína.
A partir de uma determinação do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), os crimes de homofobia e transfobia começaram a se equivaler aos de racismo. A possibilidade de os clubes serem punidos com perda de até três pontos, e pena prevista de um a três anos de cadeia, mudou a rotina do campeonato.
A homofobia é algo presente no futebol há tempos. Ouvir gritos de “bicha” enquanto o goleiro bate o tiro de meta se tornou algo frequente nos estádios brasileiros, e se popularizou após a Copa do Mundo de 2014. Um exemplo disso aconteceu durante a Copa América, disputada em junho, no Brasil. Na partida entre Brasil e Bolívia, parte da torcida brasileira presente gritava “bicha”, quando o goleiro boliviano Carlos Lampe batia o tiro de meta. A Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) multou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), por determinação da FIFA (Federação Internacional de Futebol).
Em setembro de 2019, durante a partida entre Cruzeiro e Vasco, no Mineirão, um casal de torcedores do Cruzeiro foram ameaçados por estarem abraçados e se beijando na arquibancada. Vídeos do casal também foram feitos, e publicados em redes sociais, fazendo com que Yuri Senna e Warley Silva se tornassem alvos de diversos ataques homofóbicos.
Desde 2014, até a data de fechamento da matéria, 19 casos de injúria racial e 2 por discriminação de sexo foram relatados e julgados. Crime presente no artigo 243-G que trata sobre “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”, segundo o STJD.
Nos campeonatos brasileiros já ocorreram vários casos de times que perderam pontos, mando de campo, tiveram que pagar multar e até sofreram eliminação de campeonatos por causa de crimes de racismo.
Um dos casos mais famoso e conhecidos, ocorreu em agosto de 2014, durante uma partida entre Grêmio e Santos. O goleiro do Santos, Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha, foi chamado de “preto fedido” e de “macaco” por alguns torcedores. “Naquele jogo do Grêmio me senti como todas as vezes que joguei lá, sempre com sentimento de ódio, raiva e indignação”, diz o goleiro.

Foto: Reprodução.
O clube além de ter sido multado pelo STJD em R$ 50.000 mil reais, foi eliminado da Copa do Brasil porque perdeu seis pontos. Um dos acusados de cometer crime de racismo contra o goleiro, foi uma jovem de 23 anos, identificada como Patrícia Moreira da Silva, que foi filmada o xingando de “macaco”. Ela, junto com outros três gremistas pegariam de 1 a 3 anos de prisão. No lugar da pena, aceitaram se apresentar a uma delegacia uma hora antes de cada jogo do Grêmio em Porto Alegre, durante seis meses.
Ver casos de racismo noticiados não só no futebol, mas em diversos esportes, já se tornou frequente. “Não aumentaram os casos de racismo e injúrias, o que aumentou foram as denúncias. Os negros estão tomando coragem para não aceitarem mais serem desumanizados e humilhados. ” declara Aranha.
Em 20 de novembro é comemorado o dia da Consciência Negra, mas para o goleiro não é motivo de comemoração. “O 20 de novembro não é data comemorativa, é a maneira de chamar a atenção para um problema que o brasileiro não gosta de falar achando que assim, o problema vai se resolver. ” afirma ele.
“Os negros estão tomando coragem para não aceitarem mais serem desumanizados e humilhados.”
Casos de racismo sempre foram recorrentes, não só no futebol brasileiro, mas também no mundial. Jogadores como Daniel Alves, Boateng, Arouca, Serginho, que chegou a abandonar uma partida na Bolívia, já sofreram com gritos racistas. O tcheco Theodor Gebre Selassie, primeiro negro a atuar pela seleção do seu país, relatou a jornalistas que notou gritos racistas e preconceituosos em uma partida contra a Rússia.
Em novembro de 2019, os brasileiros Taison Barcellos e Bruno Ferreira, conhecido como Dentinho, que atuam pelo Shakhtar Donetsk, deixaram o campo chorando, durante um clássico contra o Dinamo de Kiev, pelo campeonato Ucraniano. Quando os jogadores pegavam na bola, torcedores do Dinamo, faziam sons imitando macaco. Taison reagiu aos insultos, mostrando o dedo do meio para torcida e chutando uma bola em direção as arquibancadas, como punição recebeu um jogo de suspensão.
Machismo. Outro preconceito presente no esporte. Ao ir a um estádio, a quantidade de homens presentes é bem maior que de mulheres, e não precisa de pesquisas para entender que tal afirmativa é verdadeira. Mulheres que vão sozinhas ao estádio são bem menos que homens. Mas mulheres que já sofreram algum tipo de assédio dentro do estádio são bem mais. O machismo não ocorre apenas na arquibancada, dentro de campo também é realidade.
“Ser mulher no futebol é ter que provar que sabe, que conhece e que gosta do esporte a todo momento. As mulheres são colocadas à prova a todo momento. Quando erramos, ouvimos piadas sobre sermos mulheres, enquanto que os homens cometem erros que vêm de um engano ou de falta de informação mesmo. Nossa apuração também é muito mais contestada. ”, afirma a jornalista Renata Medeiros.
Em março de 2018, a jornalista esportiva da Rádio Gaúcha, ao cobrir o Gre-Nal, - clássico disputado entre Grêmio e Internacional- foi hostilizada e agredida fisicamente por um torcedor do Inter. A jornalista registrou toda a ação e divulgou nas redes sociais. O torcedor foi retirado da arquibancada por seguranças.

Foto: Reprodução.
“Senti, em um primeiro momento, que não pertencia àquele mundo, que era uma intrusa. Depois, transformei todos os insultos nas redes sociais e todo o trauma da situação em vontade de transformar o futebol num ambiente propício à presença de mulheres para que ninguém mais passe pelo que passei.”, conta Medeiros sobre o caso.
Doze dias depois, e após recentes casos de assédio contra jornalistas, como o caso citado, e também como o da repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, que foi beijada, à força, por um torcedor, a campanha “Deixa Ela Trabalhar” foi lançada. “Manifesto de jornalistas que trabalham com esporte. Contra o assédio e machismo nos estádios, redações, ambiente de trabalho e onde quer que aconteçam. ”, explica a conta oficial do projeto.
Ao todo, 50 jornalistas mulheres de todo o país, lançaram um vídeo com relatos, comentários violentos e ameaças de estupro que sofreram de torcedores, nos estádios e nas redes sociais. Após mais de um ano desde o lançamento da campanha, Medeiros opina. “Acredito que o machismo está mais reprimido nas pessoas. Externar discursos machistas está mais raro porque a pessoa pensa que pode ser repreendida, e não porque ela mudou de opinião. ”, explica sobre possíveis mudanças após a campanha.
O machismo ocorre desde jogadoras, que tem péssimas condições de trabalhos, diferença salarial notável, e ainda ouvem que “lugar de mulher não é no futebol”, até repórteres que já foram assediadas no trabalho e são apenas 13% de todos os que trabalham no jornalismo esportivo na TV fechada, segundo o UOL esportes.
“Acreditem em si, mesmo que o mundo faça que vocês duvidem. Estejam onde vocês sonham estar daqui a uns anos para conhecer a rotina. Leiam tudo o que puderem. Se especializem. O mercado está muito preparado para nos receber, mesmo que o entorno indique o contrário. ”, Medeiros ainda deixa uma mensagem para estudantes de jornalismo.
“Acreditem em si, mesmo que o mundo faça que vocês duvidem. ” –Renata de Medeiros.
A data da Consciência Negra faz referência a ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, grupo que lutou para preservar a vida dos africanos escravizados que conseguiam fugir da escravidão.
O técnico Roger Machado, comanda atualmente a equipe do Bahia é um dos dois treinadores negros entre todos os vinte da série A de 2019. O treinador além de ser um dos destaques do time, é engajado em pautas e ações defendidas pelo clube. Todos os anos ocorre a premiação Zumbi dos Palmares. Escolhido por vereadores de Salvador, Machado recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, que é entregue para pessoas, grupos ou entidades que se destacam no combate ao racismo e intolerância religiosa.
Material publicado em: https://issuu.com/jornalmarcozero/docs/jornal_65.


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